Altar na Vida
Na tradição hindu, é costume honrarmos a Vida através das deidades. Reservamos um lugar na nossa casa para um altar onde colocamos as deidades que reverenciamos, bem como acessórios de apoio a rituais mais formais como sino, cânfora, kunkum (pó vermelho), pasta de sândalo, lamparina, entre outros.
Começa-se, logo de manhã, antes da pessoa se alimentar e depois de tomar banho, à frente do altar, em rituais mais ou menos elaborados e/ou em meditação. Poderão ser incluídas preces e um mantra ou mantras que nos foram dados e que repetimos por um número de vezes.
E apesar de não ter nascido dentro da cultura hindu, identifiquei-me espontaneamente com este ritual diário de oferenda às deidades, seja em forma de som, seja em forma de alimento, roupas, água, incenso, luz.
E isso fez-me pensar naquilo que é verdadeiramente o altar, independentemente de estabelecermos alguma relação ou não com alguma cultura, tradição ou religião.
A palavra “altar” vem do latim “altare” e “altus”, que significam “lugar elevado” ou “alto”.
Pode ser igualmente:
“Uma Mesa ou estrutura elevada usada para celebrações religiosas, oferendas ou sacrifícios
- Na arquitetura religiosa, área central de uma igreja onde se realizam os principais ritos
- Em geologia, formação rochosa elevada e plana, semelhante a uma mesa
- Figurativamente, local de devoção ou dedicação a uma causa ou ideal”
Estar à frente de um altar leva-nos a uma atitude natural de humildade, de agradecimento pelo dia e pela vida e por tudo que nos foi oferecido até ao momento. Também pode ser um momento em que honramos os nossos ancestrais, que tanto sacrificaram para esta vida existir e ao Universo em alguma forma ou formas com que nos identifiquemos.
Mas como trazer isso para fora do altar – como continuar com essa perceção ao longo da vida no meio de azáfamas, desafios, conflitos, entre outros? Como transpor esse ato de agradecimento quando assistimos a algo injusto, a algo que vai para além de uma aceitação superficial?
O que me ajuda nesse processo é testemunhar todos estes objetos, sensações, sons, pessoas como a continuidade desse altar em ponto minúsculo com que iniciamos e/ou terminamos o dia.
Observar que nós próprios estamos dentro desta infinita entidade cósmica que apresenta inúmeras formas à nossa frente e tal como, na tradição védica, se alude muitas vezes, ter consciência que tudo é barro e as formas são o pote, sendo que se removermos o pote, continuamos com o barro, aludindo à Consciência que permeia tudo.
Dessa forma, deixo de me ver como algo separado deste Universo, deixo de me ver como algo não digno de reverência, de altar e passo a contemplar este corpo, estes pensamentos, esta energia, e esta observação de tudo isso como sendo igualmente barro.
Isso reflete-se em cada pessoa também, mesmo que isso seja desafiante. A pessoa também é essa essência, sabendo ou não sabendo, agindo, ao nosso olhar, de forma errada ou não.
E apesar de intelectualmente tudo isso fazer sentido, cultivar esta visão continuamente requer uma atenção bem presente a todo o tempo até se tornar digamos que um hábito.
Nessa ponte entre o altar da casa e o altar em que estamos inseridos continuamente, pode haver um momento em que esse altar com que começámos esta viagem deixar de ter a mesma importância que anteriormente, pois é tanto altar como tudo o resto.
Outro ponto de vista será olhar para esse altar como esse mesmo Todo e partir para o altar da cozinha, do escritório, da sala, do quintal, da rua, dos vizinhos, dos rios, da família, dos planetas, de toda esta infinitude estelar.
E, assim sendo, há também um descanso com isso. Um descanso em, independentemente de reverenciar um altar físico ou não, o altar é sempre presente.

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