Compromisso e o dharma
Tenho andado há uns dias com este pensamento e reflexão sobre a palavra “Compromisso”.
E quando é assim, mais tarde ou mais cedo, algo precisa de ser escrito, algo precisa de ser expresso.
A palavra “compromisso” do latim compromissum tem vários significados, entre os quais ser uma “obrigação ou promessa feita por uma ou mais pessoas” ou “obrigar-se a”.
Outra palavra que me parece fazer sentido integrar no compromisso é a disciplina, originária do latim e que significa “instrução, conhecimento, matéria a ser ensinada” ou “ensino que um discípulo recebe do mestre”. Deriva de discipulus (aluno, aprendiz), que por sua vez vem de discere (aprender). Passou a significar, ao longo do tempo, obediência a regras, ordem, conduta, firmeza de caráter e um ramo do conhecimento/ciência e autocontrole.
E o compromisso, a consistência e a disciplina levam-nos à palavra “dharma” (da raíz dhr – sustentar, apoiar, manter, suportar) que representa, entre outros significados, a própria ordem em que este universo e cada ser se tece e que se reflete na capacidade de cumprirmos o nosso dever tanto a nível individual como a nível relacional e social.
Então, a capacidade de mantermos o compromisso que envolve disciplina (aqui – prática regular, consistência) tem como origem o dharma.
Só quando o dharma se assume como um valor para nós, é que o compromisso se irá estabelecer naturalmente em nós.
E, assim sendo, a pergunta que se poderá seguir é: como cultivar o dharma nas nossas vidas?
Parece uma pergunta simples, mas na verdade requer uma reflexão profunda.
Primeiro, é necessário que o que é o apropriado se torne uma prioridade na vida e para o dharma ser uma prioridade, preciso de entender o que perco de vista quando não sigo o dharma.
Todos nós já testemunhámos isso nalgum momento das nossas vidas: quando algo de inapropriado é feito, cedo ou tarde percebemos a resposta a essa ação e vemos que não era a ação correta naquele momento.
Segundo, precisamos de entender que todo este Universo tem uma ordem e que nós, enquanto seres humanos e interligados entre si, também fazemos parte dessa ordem, também somos essa ordem!
A partir daí, e se efetivamente fizer sentido para nós esta visão (aqui sucintamente exposta), será cada vez mais natural para nós seguir o valor do dharma, a conduta apropriada e que é um constante treino ao longo da vida.
Na prática de canto devocional, por exemplo, seja de preces tradicionais indianas, canto védico ou dhrupada, o compromisso com a prática é essencial.
Esse é o dharma do aluno, mas também do professor.
Tal não quer dizer que não haja compaixão no processo – antes pelo contrário. Este compromisso envolve também às vezes parar, focarmo-nos numa frase apenas, contemplar o som, manter o foco e atravessar o rio das emoções.
O compromisso também é a honestidade connosco próprios: de percebermos porque praticamos, e expormos as nossas dúvidas ou dificuldades com o professor para que o mesmo nos possa orientar.
Compromisso é também olhar para a prática como um espelho do que precisa ser visto, sentido, apreciado naquele momento.
E, acima de tudo, compromisso é praticar em verdade – é exprimir o que precisa de ser expresso ali com toda a devoção, abertura e sinceridade.
E esse é o verdadeiro compromisso, a prática diária, momento a momento.

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